É com grande prazer que anuncio a chegada de mais um colunista no Blog do Belmontense, o poeta amigo Ismael Gaião, que inicia seu causo
SUICÍDIO
Da varanda de seu apartamento, a linda jovem, que acabara de se arrumar para ir à faculdade, gritou:
- Ai meu Deus, ela vai pular!
- O que foi minha filha?
- Aquela moça, mamãe. Em cima daquele prédio. Ela está tentando um suicídio.
- Que prédio? Que moça? Não estou enxergando.
- Aquele, da avenida ali em frente. A moça está com uma touca branca na cabeça.
- Meu Deus! A que ponto chega o desespero humano. No mínimo ela perdeu o emprego ou, talvez,
encontrou o marido na cama com outra mulher.
- Temos que fazer alguma coisa. Vou ligar para o corpo de bombeiros.
Começou o corre-corre. Enquanto a mulher ligava para o corpo de bombeiros, a filha conversava com o namorado ao celular.
- Uma moça está em cima de um prédio, aqui perto, tentando suicídio. Vamos avisar aos amigos no Orkut. É possível que alguém more lá e tente fazê-la desistir.
Após falar com a emergência do corpo de bombeiros, a senhora, que deixou a comida abandonada no fogão, interfonou para a guarita de seu prédio.
- Você tem o telefone do condomínio daquele prédio? Uma mulher está querendo pular da cobertura!
- Estou vendo. Parece que o marido está atrás dela. Deve ser briga de casal.
Aos poucos, a informação circulava pelas redes sociais. O trânsito, que há muitos anos deu um nó, parou de vez. Das janelas dos ônibus ouviam-se os gritos:
- Ele não merece isso não. Dá um tiro nele.
- Como é que eu chego ao trabalho hoje?
Multidões se aproximavam por todos os lados. Ruas, becos e avenidas. Era uma multidão só. Vendedores de água mineral corriam de carro em carro.
- Olha a água, madame! “É dois real”. “É só dois real”.
- O governo não faz nada. Deveria haver psicólogos e assistentes sociais em todos os postos de saúde. O povo deveria receber mais atenção dos governantes.
Limpadores jogavam água nos para-brisa. Algumas moças entregavam panfletos de propaganda.
- Gostosa! Você é a nora que minha mãe pediu a Deus!
- Não jogue, não! O para-brisa estava limpo e você jogou sua água suja!
- Essa é a terceira vez que ela tenta suicídio. Há pouco mais de um mês ela tomou uma caixa de comprimidos, mas conseguiram salvá-la.
O barulho das buzinas era ensurdecedor. O corpo de bombeiros e a polícia usavam megafones, mas os dois, que se encontravam em cima do prédio, não ouviam.
Devagar, eles caminhavam de um lado para o outro, em cima do teto. Os repórteres chegavam de todas as rádios, jornais e redes de televisão.
- O plantão 24 horas informa: Jovem tenta suicídio em um dos prédios mais altos do centro dessa capital.
Pequenos assaltos foram ocorrendo nas ruas da vizinhança. Mulheres e jovens eram os melhores alvos dos pequenos bandidos.
- Policial, um trombadinha levou minha carteira e meu celular.
- A vida daquela moça está em jogo. A senhora não está vendo?
Os pequenos comerciantes fecharam suas portas. Os guardas de trânsito não conseguiam controlar os engarrafamentos. O Shopping Center reforçou a sua segurança.